Pokémon Legais e Legítimos – Filtro de Hack


Por Ricardo Paleari

1) Introdução

Você com certeza já se deparou com a palavra Hack em Pokémon algum dia. É um assunto polêmico desde sempre e não é a intenção desse post discutir se o uso de Hack é válido ou não. Mas o que significa exatamente a palavra “Hack”? Se diz que uma pessoa usou “Hack” em um jogo quando ela modifica o jogo por meios não oficiais ou se aproveita de algum defeito do jogo para fazer coisas impossíveis por meios de “gameplay comum”. Clonagem é um maneira de fazer hack, um defeito do jogo que ocorre durante trocas que acontece desde o Game Boy. Criação de Pokémon e edição de saves existem desde a geração 3, na época por meio dos chamados “Game Shark” que usavam códigos chamados “Action Replays”. Ao longo das gerações vários programas de computador foram criados para edição de saves em diversos jogos, incluindo Pokémon. O mais famoso foi o PokeGen (gen 4 e gen 5), e mais tarde o site que enviava Pokémon de geração 5 para os jogos Black/White 1,2 via GTS, chamado pokecheck.org. Atualmente, o programa mais usado é o chamado Pkhex, sucessor direto do PokeGen (do mesmo criador).

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A “necessidade” desses programas é natural. A mecânica de breeds em Pokémon sempre foi muito complicada, sendo amplamente simplificada apenas na 6º geração, então as pessoas queriam métodos rápidos sem precisar gastar horas/dias fazendo breeds até ter os Pokémon que gostariam. Pokémon Lendários/Míticos com Ivs perfeitos por exemplo, eram coisas que nunca existiriam na prática, não pelo menos em abundância. E por mais que o Pokémon Competitivo tenha seu ápice na geração 6, ele foi consolidado a muito tempo, sendo o primeiro Mundial de VGC em 2009 com Pokémon Platinum.

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É claro que se você tem intenção de jogar em um Mundial você não vai quer perder, então no mínimo você vai querer usar Pokémon perfeitos. Alguns lendários, por exemplo Heatran, sempre tiveram um potencial acima da média e sempre foram muito usados. Mas se na época era raro encontrar um lendário com ao menos 3 ivs perfeitos, como eles poderiam ser usados em partidas de um mundial, onde tudo é precisamente calculado com base em Pokémon perfeitos? Pois então é claro que, mesmo em mundiais, Pokémon modificados via programas como PokeGen eram usados também. É óbvio que você não iria para um mundial usando um Hitmonlee com Fly, então surge a preocupação de criar Pokémon que se “pareçam” ao máximo com Pokémon que podiam ser obtidos via game play comum. Aqui nascem os conceitos de “Pokémon Legítimo” e “Pokémon Legal“.

hitmonliu

Um Pokémon Legítimo é um Pokémon capturado, breedado ou obtido via evento oficial e que não foi modificado por nenhum meio não oficial. Um Pokémon Legal é um Pokémon que foi criado via Hack, mas que tem as mesmas características de um Pokémon legítimo, ou seja, é um Pokémon que em teoria poderia ser obtido via gameplay normal. Por mais que um Heatran capturado em geração 4 improvavelmente terá 6 ivs perfeitos, isso é perfeitamente possível. Por isso o site Pokecheck era extremamente popular, ele possuía também um “Legality Checker“, que verificava se seu Pokémon era Legal, isso caso você tivesse essa preocupação. Mas, infelizmente, nem todos verificavam a legalidade e abusavam do PokeGen, criados Hacks com status acima do permitido, movesets impossíveis, habilidades impossíveis e assim por diante, e usavam esses Pokémon em batalhas online, fazendo com que os oponentes ficassem em total desvantagem e perdendo o gosto por batalhar online.

pokecheck

2) Criação dos Filtros de Hack

Já na 6º geração, a vinda do modo PSS de Pokémon X/Y permitiu que o mundo todo pudesse batalhar e trocar de uma maneira muito mais dinâmica e foi sem dúvida o ápice do Pokémon Competitivo. O site Pokecheck estava prestes a ser encerrado, por não ter a compatibilidade desejada com a 6º geração e por isso apenas Pokémon legítimos eram usados. Entretanto, alguns meses depois do lançamento de XY, os aplicativos PokéBank e PokéTransporter vieram a tona, trazendo a possibilidade de o jogador enviar seus Pokémon de geração 5 para os jogos de geração 6. Com isso, é claro, vieram todos os hacks impossíveis e imagináveis para a 6º geração, e isso estragou completamente a experiência do modo online de XY. Por isso a Game Freak atualizou seus servidores e começou a criar os chamados Filtros de Hack.

pokebank

Isso foi uma maneira de bloquear os Pokémon impossíveis do modo online e também de serem enviados de gen5 para gen6 via o PokéTransporter. Esses filtros foram atualizados diversas vezes com o tempo. Foram ainda mais intensificados quando o aparelho PowerSaves 3ds e o programa Pkhex vieram a público, permitindo a criação/edição de Pokémon da maneira como você desejasse agora na 6º geração. Não apenas isso, mas posteriormente o programa Pkhex passou a permitir edição completa do seu Save, fazer o que quiser em relação a itens, battle points, pokemiles, avatar, e tudo mais. Daí a Game Freak foi um passo adiante e começou a banir de competições oficiais jogadores que eles identificassem que modificaram seus saves de maneira não oficial. Atualmente os filtros de Hack funcionam razoavelmente bem, e não é possível mais ver Pokémon absurdos sendo usados no modo online, seja batalhas ou trocas. Entretanto, mesmo agora, o Filtro de Hack da Game Freak apresenta diversas falhas, e vamos discutir as principais delas na próxima seção.

pkhex

3) O que passa e o que não passa nos Filtros de Hack?

Algumas coisas são pegas com 100% de certeza pelos filtros de Hack atuais. Entre elas

– Pokémon com uma habilidade que ele não pode ter;
– Pokémon com golpe que não pode aprender;
– Pokémon com status base modificado ou acima do máximo permitido;
– Pokémon, golpes ou itens que não foram oficialmente distribuídos pela Game Freak;
– Pokémon de evento com Nature ou Ability diferente da predeterminada (caso houver).
– Pokémon com nickname ofensivo, de cunho religioso entre outros termos polêmicos.

Para citar alguns exemplos, o filtro não deixa um Pokémon ter mais que 252 pontos em um status e nem mais do que 510 pontos no total. Nenhum Pokémon pode possuir os moves Thousand Arrows, Thousand Waves ou Light of Ruin. A Eternal Floette não pode ser usada em batalhas e nem trocada. O Shiny Entei do evento do filme do Zoroark deve ter Nature Adamant. Os Pokémon Celebi, Victini, Keldeo, Meloetta, Zygarde, Hoopa e Volcanion não podem ser Shiny de forma alguma (até o momento desse post). Os itens “Type Gem” não podem ser usados, com exceção apenas de “Normal Gem”. Um Garchomp não pode ter o movimento Dragon Dance, e assim por diante.

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Entretanto, várias coisas não legítimas não são pegas pelo filtro de Hack, ou seja, ele ainda tem várias falhas (e provavelmente vai continuar tendo). Vamos as principais falhas!

– Um Pokémon pode estar em apenas algumas Pokébolas específicas;

O filtro de Hack não verifica a validade da pokébola que contém o Pokémon. Por exemplo, nenhum Xerneas pode estar em uma Dream Ball, pois apenas Pokémon do Dream World e Dream Radar na geração 5 podem estar nessa pokébola porém, um Xerneas assim pode ser usado no modo online. Ao testar até mesmo um Pokémon de evento de Cherish Ball com outras pokébolas se percebe que eles continuam a entrar no modo online. Se você quer saber quais pokébolas são permitidas em cada Pokémon clique aqui.

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– Nem todo jogador pode colocar nicknames em Pokémon de evento;

Pokémon de evento em geral tem OT, ID e SID específicos. Apenas um jogador com o mesmo ID, OT e SID será capaz de colocar um nickname nesse Pokémon (apenas ID e OT não são suficientes). Essa regra serve também para quebrar um mito que algumas pessoas acreditam relacionado a isso. As pessoas dizem que quando recebem um Pokémon de um evento japonês digamos, ele só será será legítimo se tiver nome japonês. Isso é completamente falso, como acabei de dizer, se o treinador que recebeu o Pokémon tiver o mesmo ID, OT e SID do Pokémon (o que é perfeitamente possível), ele poderá alterar o nome do Pokémon livremente e trocá-lo após isso. Entretanto, de qualquer forma, se você é o 1º dono do Pokémon e sua identificação é diferente da do Pokémon, você não será capaz de colocar um nickname nele, mas se o fizer usando hack, ele entrará online sem problemas. O filtro de Hack só se preocupa com nicknames que sejam palavras ofensivas, de cunho religioso entre outras polêmicas.

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– Diversos Pokémon após gen 5 são Shiny Lock;

A partir da 5º geração começaram a surgir Pokémon que foram programados para não serem Shiny de nenhuma maneira. Eles poderão ser apenas se eles forem distribuídos em algum evento já na forma Shiny. Confira a lista dos Pokémon que não podem ser Shiny clicando aqui. Por exemplo, em Omega Ruby o Groudon do modo história não pode ser shiny, entretanto se você o transformar em shiny via hack, ele poderá ser usado online sem problemas (se você manter os outros dados legais é claro). No entanto, se você tentar usar um Celebi ou um Keldeo shiny online, eles não passarão. A diferença é que Groudon já foi disponibilizado na forma Shiny em jogos anteriores, diferente de Celebi e Keldeo, cuja forma shiny nunca foi disponibilizada oficialmente até o momento. Minha conjectura sobre como isso funciona é a seguinte:

  • Se o Pokémon já foi disponibilizado na forma Shiny anteriormente, então qualquer versão posterior desse Pokémon entrará online independente de estar na forma Shiny ou não (mantendo os outros dados legais).

Todos os eventos na geração 6 são shiny lock exceto o Arceus distribuído no filme do Hoopa no Japão. Mas ao transformar qualquer um deles em shiny via hack, eles continuarão entrando online desde que sua versão shiny já tenha sido disponibilizada de alguma forma anteriormente.

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– Antes mesmo de um evento ser liberado, o Pokémon não liberado já pode ser usado online;

Isso é má configuração dos servidores da Game Freak. Esse ano temos os eventos mensais de todos os Pokémon Míticos até gen 5. Se você simular os Wondercards de. por exemplo, Shaymin, Arceus e Victini, cujos eventos só acontecerão nos próximos meses, esses Pokémon entrarão no modo online. Porém isso não funciona com todos eles. Até o momento, com Manaphy, Keldeo, Meloetta e Genesect isso não funciona. Um ano antes do filme do Hoopa houve um dia que o Hoopa foi liberado online, mesmo sem nenhum desse Pokémon ter sido distribuído oficialmente até aquele momento.

– Bug do Arceus

Esse é realmente bizarro. Com o Pkhex você pode mudar a aparência do Arceus para qualquer outra cor sem a necessidade de colocar nele um item “Plate Type”, e na realidade você pode colocar o item que quiser. Assim, por exemplo, é possível criar um Arceus com Lum Berry, tendo assim o tipo Normal, mas com a aparência do Arceus-Ghost, o que vai enganar completamente seu adversário. Isso é uma edição totalmente ilegal, mas passa online…

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– Pokémon de evento possuem OT, ID e SID específicos;

Como já disse anteriormente, Pokémon de evento em geral possuem OT, ID e SID específicos. Entretanto, em diversos casos se você mudar esses dados para o que quiser o Pokémon continuará entrando online. Como exemplo, peguei o Mew distribuído no evento de 20 anos e inventei um ID e um SID quaisquer, e funcionou. Entretanto o mesmo não funcionou para o Keldeo tanto de gen5 como para gen6. A diferença é que todos os Míticos até gen 4, com exceção de Celebi, e Victini em BW1 já foram capturáveis ingame, permitindo que fosse possível eles terem qualquer OT, ID e SID. Minha conjectura sobre como isso funciona é a seguinte:

  • Se o Pokémon já foi capturável ingame em algum jogo anterior, então qualquer OT,ID e SID é permitido no modo online (com as outras informações legais), por mais que dependendo do evento essas informações já estejam predeterminadas.

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– Falta de Ribbon

Pokémon de evento em geral possuem algum Ribbon especial. Entretanto, o filtro de Hack ignora isso por completo, não importando se o Pokémon possui Ribbon ou não, ele vai passar online. Inclusive o GTS trás o maior defeito relacionado a Ribbons. Um Pokémon que possui algum Ribbon especial de evento não pode ser trocado no GTS, mas basta você remover essa Ribbon via hack e ele poderá subir para o GTS (e também Wonder Trade).  Esse é o maior motivo do GTS ter tantos hacks, um problema que poderia ser facilmente resolvido com um simples patch.

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– Pokémon de eventos com moves especiais

Diversos eventos trazem Pokémon com moves que eles não podem aprender normalmente. Na geração 4 por exemplo, foi distribuído um Darkrai com os moves de assinatura de Dialga e Palkia, Roar of Time e Spacial Rend respectivamente. Já na geração 6, foi distribuído um Darkrai com o move Phantom Force. O que acontece então se eu colocar esses 3 moves ao mesmo tempo em algum desses Darkrai? Bom, o de geração 4 passa online e o de geração 6 não, e ambos em os casos o Pokémon é ilegal. Mas o que determina quem passa e quem não passa? Não tenho ideia. Outro exemplo interessante é o Pikachu, que é o Pokémon que mais recebe moves especiais via eventos. Em geração 6 houve um Pikachu especial com os moves Endeavor e Volt Tackle, e outro com os moves Fly e Surf. Criei um novo juntando esses 4 moves em um só moveset, e adivinha? Ele passou online. Fiz outro teste, agora com um Pikachu distribuído em geração 5 com o move Extreme Speed. Acrescentei os moves Fly e Surf, não funcionou online. Nesse caso foi o contrário, o de geração 6 passou e o de 5 não. Acredito que o Filtro de Hack esteja completamente bagunçado nesse quesito.

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É curioso notar que os defeitos do Filtro de Hack da GameFreak que citei acima são identificados no Legality Checker do programa Pkhex, ou seja, o programa dos hackers é muito melhor do que o filtro dos próprios criadores do jogo, algo difícil de entender. Existem outros quesitos que o Legality Checker do Pkhex identifica mas que o da Game Freak não, como Move Relearners, Met Locations, Memorys entre outras coisas, mas não vou mais prolongar essa discussão.

Se você conhece mais alguma falha do filtro de Hack comente aí, sem dúvida será acrescido da nossa lista! Você acredita que o filtro de Hack vai melhorar agora com a vinda de Pokémon Sun/Moon? Quero saber sua opinião!